Carta Seis.

Querido C.F.,

Você não se lembra de mim. De modo algum.

Os seus olhos disparados em meu quadril naquele ambiente mergulhado na cultura barata norte-americana. Não se lembrou – nenhum lampejo de passado em seus olhos malignos. Nenhum arrependimento nas suas veias sob o pescoço. Sua língua molhada de carne de outros animais não queimou: você admirava a quem flagelou. Perguntei-me se o inferno era tão semelhante àquela situação – e acredito que, se ele existir nos padrões cristãos, Dante me abraçou.

Eu não vou derramar meu conhecimento de padrões de beleza em você. Sua existência está abaixo da planta do meu pé, está abaixo das minhas dores. Parabéns, meu caro, parabéns por ser a criatura miserável que és. Não lhe lembrava, não lhe chorava; meu âmago estava em outro plutão. E assim que invadiu meus olhos a tormenta me arrebatou. O rumo desviou-se, colidiu no trem coberto de raiva.

As lembranças talvez fiquem na espiral do dna.

O pátio escolar ainda me é comum, consigo transcrever no meu córtex a cor da grama, o mormaço biriguiense e o palco de parede amarela descascada. Os poemas dariam conta da cena letal que se seguiria – com eu queria ser diretora do filme da minha vida! E transformar a tragicomédia em ficção cientifica, ou terror, corra, pequena-Carolina. Eu nunca corro – talvez esse é o erro abismal de quem carrega muita coisa nos ombros. (um calibre .40 também funcionaria naquele passado)

Você aproximou-se – eu nem lhe conhecia. Riu, encurvou-se e me deu um papel pequeno e retangular, as letras grafais traziam o nem vô. Nem vou para onde? – pensei. Quiçá, tenha me confundido, eu lhe disse isso, não sabia o que tratava. E você falou para eu procurar.

Eu procurei.

Era uma “brincadeira” de um programa de comédia, mulheres feias recebiam o “nem vô”. Humilhação então? Era isso que você pediu para eu procurar?

Você tem noção o que significa chamar uma menina de feia? Vida que segue: você tirou sarro em mim durante não sei quantos anos até sair daquele lugar.

Eu era, então, feia, que ninguém me comeria – só a minhoca quando eu morresse. Essas equações de palavras acompanhadas de desprezo e nojo (por que me odiava tanto? Por que tinha tanto prazer em minha dor?) acompanharam-me, intervalos e mudanças de aulas. Até a biblioteca, que virou meu refúgio, você fez questão de invadir, derrubar minha minúscula monarquia.

Seu legado fez-me companhia nos anos que não estavam presentes. As pulsões de morte estapeavam minha face pré-adolescente; e você, e seus amigos, e todos, descobriram minha deficiência. Além de nojenta, feia, eu era também contagiosa. O resquício da minha segurança se foi. O poço estava ali, eu estava na beirada e vocês só empurraram meus ombros lentamente: afundei-me em mim mesma. Acreditei. Fui fiel às suas grosserias.

Eu era pestilenta então. Como Gregor Samsa, me limitei a uma barata! Ah, as baratas com certeza eram melhores que eu! Criaturas peçonhentas tornaram-se belas perante aos meus desejos e medos. A escola não me atraía, passei a me afundar cada vez no colchão e cobertas. Em minha volta para as carteiras, um amigo seu disse-me que sentiu minha falta e, novamente, passou a me perturbar.

Você não se lembrará de nada disso nem se sentirá culpado. Quem apanha que não esquece, não é mesmo?

(se é para queimar, que exploda então.)

Rancorosamente,

Carolina.

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Carta Cinco.

Querida V.M,

Sua carta é cheia de labor: a pena que me deve me queima; as pontas dos meus dedos são corroídas pela reminiscência decepcionante. Lhe botei na frente das cartas porque é catarse – como alguém muito especial me disse -, lhe botei na frente porque uma moça a qual muito admiro leu meu córtex e disse-me para não encurvar – como você me fez encurvar várias vezes, como pisou os seus pés em minhas mãos. É por isso que escuto Zé Ramalho e Alceu Valença ao meter essa tinta falsa nesse papel virtual: preciso de força, preciso do sangue pulsando em minhas veias porque dói. Porque, hoje, sei que o que você fez não passa da reprodução do que querem o que fazemos. Eu aponto em você a maldade, o narcisismo e o egoísmo, mas divido sua culpa com toda a estrutura que vivemos.

Não sei se você sabe, mas catarse significa algo como purificação; ou expressar e se libertar de algum tipo de corrente. Você está em uma categoria estranha em meu córtex. É como aquela unha que está curta, mas ainda maior que seu habitual. Eu lembro das suas unhas – eram lindas – e eu sempre escondia as minhas das suas; eu era infantil, púbere, inocente e você já era quase mulher formada. (Como supracitado era tudo devaneio da minha cabeça)

Nos meus quinze anos, o qual quase desisti, trouxe o seu grande amor da sua vida. Ele fez a declaração, lhe entregou uma flor. Para mim era normal isso, você era minha amiga, éramos amigos – não tinha problema submeter uma possível surpresa a você no meu dia. Realmente, se hoje eu sou alguém egoísta e desconfiada, tem muitos buracos, em várias alturas.

Por razões que hoje entendo, eu e seu namorado nos aproximamos. Quiçá, ele estava apaixonado, quiçá era porque eu era sua amiga e ele lhe adorava. Você passou a ser diferente comigo, sempre me colocando em níveis categoricamente inferiores, e perguntei, está tudo bem? que houve? Não obtive reposta. Vocês terminaram. E você começou a beijar, nos intervalos, e saídas, um rapaz, no mínimo, problemático.

Como fogo e gasolina, o estopim veio: ele te namorava e, além de trair, contava todas as coisas suas para os amigos e a comunidade estudantil. Fui te defender – o puxei no intervalo e disse para ele ser sincero contigo. Você era uma pessoa especial e não merecia ser machucada. (Inocência. Ah, a doce inocência!) Ele pareceu entender. Fiquei muito contente, estava protegendo uma amiga e de quebra ensinando um rapaz nojento ser alguém decente.

Que soassem os tambores no outro dia matutino, às 7h e pouco, você veio, pronta para me atacar, esbravejando. E disse-me que eu queria destruir seu relacionamento e que destruí o anterior, depois que se acalmou e eu, deveras, assustadas me coloquei a te ouvir, as palavras vieram: ele disse-me que alguém feia e com a língua presa, fanha foi se queixar… E V., ao invés de você contar como se não fosse nada ou omitir essa parte, você riu, concordando. Essa lembrança é constante na minha cabeça.

Não compreendo, até hoje, como se deu o processo, mas você parou de falar comigo primeiro, depois de me cumprimentar. Houve fofocas, você disseminou alguns segredos que para época eram grandiosos. E até sua mãe entrou na história dizendo que tinha vontade de me bater.

V., você tentou me desmerecer perante as minhas escolhas, opiniões e vontades; ocorria uma disputa intelectual só sua nas aulas, e acabava virando suicídio porque não me afetava. E eu só entendo hoje. Eu não sinto raiva ou rancor de você.

Com dó;

Muita dó,

Carolina.

Carolina

Carta Quatro.

Querida J. C.

Quiçá, o que escrevo nesse papel abstrato será uma das emoções mais reclusas: a angústia seria uma boa forma de materialização do sentimento que aqui discorro. A partir de você, minha amiga, os pensamentos suicidas vieram me visitar. Dizem que o oposto da tristeza é a alegria, eu acredito que o oposto seja o viver.

É com dificuldade que as minhas mãos se movimentam ao som do teclado, meus pensamentos são mais rápidos que o meu medo, e minha chateação com o passado. Você foi uma das minhas primeiras amigas, (mulher) e eu estava tão contente em andar com o meu par. Lembro-me que gostávamos das mesmas brincadeiras e sentávamos uma ao lado da outra nas aulas. Eu te achava tão bonita! – E você ainda deve ser: tens o padrão da beleza europeia. Não me deixava sozinha nas aulas de educação física; a primeira vez que fui considerava a menina mais feia da escola, e você a mais bonita, falou para eu não ligar, que não tinha nada de verdadeiro nessa lista.

Eu acreditei.

Provavelmente você lembra que passamos para a quinta série juntas. Ainda tínhamos aulas de educação física, teatro e minha matéria preferida era biologia; você já semelhava mais com as meninas mais velhas e até ganhou um namoradinho. Foi nessa época que comecei a gostar de música, e nossos gostos levemente tornaram díspares nesse aspecto.

O ano passou de forma quase translúcida, para mim havia dificuldade em me adaptar as novas rotinas e aulas vespertinas. Comecei a gostar de saias e vestidos – costume que é inerente até hoje – e estendi esse hábito ao ambiente escolar. Eu me sentia tão bonita como você era.

(Mesmo o acontecimento completando mais de cinco anos é tão atual quanto um hematoma: encaro por alguns, ou diversos, segundos a tela e questiono se devia ter “superado” esse sentimento.)

As imagens estão coladas em minha retina. Em meu aniversário ganhei uma saia, que para o padrão da época, era moderna, e muito bonita. Resolvi em uma manhã fatídica usá-la para interromper os portões da instituição, fizemos uma prova de português e a professora nos liberou para brincar no pátio ou comer algo na cantina. Acabamos ficando nas muretas conversando. O famoso cofrinho – o meu no caso – apareceu.

Sua risada estourou em meu ouvido. A sensação remeteu-me a um caco de vidro alojado na sola do pé. Disse-me, rindo, que criaria uma comunidade, no Orkut, eu já vi o rego da Cacá – meu apelido da época. Achei que fosse brincadeira – não foi.

O barulho do seu humor apareceu, como assombração, à noite ao ser convidada para a própria comunidade; no fórum hospedaram fotos minhas e zombarias. Ainda me é dolorido relembrar aquela situação. Contei aos meus pais depois de três dias – o motivo? A chacota estava atingiu o corredor, o banheiro feminino e o famoso recreio. Eu tremia muito, como vara verde, como quem foi atingida. Se não fosse isso, quiçá, eu nunca teria soltado a mágoa.

Hoje, pegando a lupa da maturidade, me é palpável observar como a autoflagelação – breve e forte – e minha constante distimia foram abertas em mim naquele momento, de fato. Como um martelo que bate o prego. É assustador como gente como você afeta gente como eu, não e mesmo? Eu fico pensando aqui, se você imagina que construiu anedomia em uma criança de prováveis onze anos. Acredito que meus pais nem sequer imaginam as consequências disso em meu corpo. É muito fácil dissimular – eu tive que aprender -, nada como proteger as pernas – eu podia ser criança, no entanto, sabia que o meu caí, machuque era facilmente aplicado nos membros inferiores. Ninguém precisava saber que era de propósito – aceitei, de bom grado, a alcunha de desastrada, distraída.

Na outra manhã seus pais estavam me esperando na porta da nossa sala. Pediram desculpas, você pediu desculpa. Eu era tão infantil, púbere dentro dos meus pensamentos, que acreditei que você realmente estava sentida – e eu tinha perdoado, você era minha amiga.  A aula passou. Você sentou ao meu lado.

Mas me chamou dos piores termos que entraram em meu cérebro. Eu era mimada, criança, feia, ninguém ia gostar de mim, que lhe mudariam de escola por causa de mim. Fiquei a manhã inteira atordoada no banheiro feminino.

Quando no outro dia você mudou de escola. Passei o resto dos seis meses (do ano letivo) sozinha. Diziam-me que eu era mimada, que não sabia resolver minhas coisas sozinha. Hoje, eu sou a solidão, naquela época não era. Você não acha engraçado como as pessoas nos moldam?  Sou extremamente fechada, cheia de camuflagens e com os dois pés (muito) atrás com qualquer ser-humano. Você fez um bom trabalho – inclusive fez dois bons trabalhos, o outro foi colocar todos meus amigos contra mim, afinal eu estava errada por ter deixado meu rego aparecer.

Apesar das dores, você me é indiferente hoje. Incrível o emocional humano.

Rancorosamente,

Cacá.

Carta Três.

Querida M. E.,

No começo você foi uma mão na roda, como dizem; era atenciosíssima e considerava todas as dificuldades de uma pessoa com deficiência auditiva. Mas toda sua bondade acabou na quarta série. Não era surpresa para ninguém minha dificuldade em escutar professores, pela acústica da sala e, às vezes, pelo tom de voz.

O que acontece é que, aos altos de minha dificuldade abstrata, você tornou-se uma presença que me era nociva. Uma vez chamou-me para dizer que havia realizado um teste e descobriu que eu escutava somente elogios, e não mais que isso – e aí estava minha deficiência auditiva. Eu era, no mínimo, mimada em demasia. Uma pena se isso fosse veracidade, não era – meu cid está impresso em vários locais, inclusive em documentos oficiais que me permitem ser cidadã e ter a nacionalidade, a mesma que ti.

Quiçá, eu não escutava elogios por eles não existirem – e somente, e só, as críticas vinham aos meus ouvidos corrompidos. É, hoje, divertidíssimo imaginar seus títulos e seu possível vocativo de “doutora”. Lattes, felizmente, não categoriza a forma emocional de ninguém.

Podia ter sido pior. E tornou-se, assim como a ressaca atinge a areia em dias pesados – feio comparar a senhora ao mar, você é insignificante para cumprir esse feito. Sua mediocridade atingiu níveis exorbitantes ao confraternizar com quem devia ser também seu adversário.

Minha memória não tarda nem falha: me tiraram de uma dança de comemoração de aniversário da escola por eu não dançar bem e não ser bonita e meu cabelo muito armado. Essas frases, ainda, ecoam em minha cabeça. Uma pena eu não ter gravado – seria tão bom a tecnologia nos meus altos doze anos. Eu, por nunca ter sido chamada para algo extracurricular (e em seguida ser chutada como cachorro morto), cheguei aos prantos em casa – queria saber como dava para ser bonita, dançarina e não ter cabelo armado. (Uma semana depois mais ou menos passei pelo meu primeiro processo químico em cima da minha cabeça)

Meus pais tentaram conversar comigo, sem sucesso – uma criança desencantada é irreversível. Você, então, ia ser minha salvadora, como jesus foi aos seus discípulos sujos e peões. Não foi. Era Belzebu sob uma franjinha loira. Chamou-me de orgulhosa, eu tinha que baixar a minha crista de galo, e que se eu não me encaixava naquilo não devia reclamar. Afinal, eu não me encaixava e o Mundo era assim.

Até hoje tenho orgulho da pequena Carolina que disse que nunca abaixaria a crista de galo – ah, se tem uma coisa que eu lhe agradeço, é só por: confirmar a minha coragem e orgulho, e instigar o coração briguento que sempre guardei.

Eu chorei depois também. Você disse-me que eu não era o que elas queriam, já tinham dito isso a mim. Fora medíocre você: uma pedagoga dizendo-me que não era capaz, que existem moldes.

Sua filha estudava no mesmo ambiente que o meu, uns, talvez, quatro anos a mais na idade – ou seja, éramos separadas no intervalo, nas salas de aulas e tudo o que uma boa escola, particular e cristã, faria. Em um dos intervalos ela não deixou meus amigos passarem por eles estarem comigo e ao ser chamada, você pediu para que relevássemos aquela situação. Ela era só uma menina – que jogou minha bolsa no chão e apontou o dedo para mim.

Nunca aceitei que alguém levantasse o dedo para mim, e foi a primeira vez, se não me engano, que mostrei o dedo do meio. O famoso dedo do mal. Fui para a diretoria. E não conversei com ninguém – a sua sorte é que, provavelmente, a senhora mantinha o medo de eu expor toda sua burrice e não recebi sequer um bilhetinho para os meus pais assinarem.

Espero que sua consciência não seja limpa, que tome clonazepam e todos seus efeitos reversos, e que a tristeza seja sua companhia.

Você é a personificação do meu ódio e do que odeio – e não me sinto culpada nem chateada por isso.

Rancorosamente,

Carolina.

Carta Dois.

Querido M. S.,

Você foi uma das piores pessoas que passou em minha vida. E ainda te vejo andando pelas ruas de minhas raízes natais. Mas deixe quieto as artimanhas que construímos. Hoje eu quero falar de você.

Eu me pergunto se sou bonita até hoje, se não sou um dragão. Lembra disso, meu querido? Sua postagem em uma fatídica rede social, chamando-me de dragão, que eu cuspia fogo. Que o seu colega de sala por gostar de mim devia ter problemas mentais.

Pois bem, eu lembro. E os seus “canhão!” nos corredores também. Eu gostaria de lhe zoar por você ser você, mas não via problema em você ser você. Mas para você eu era errada: meus cabelos, meu pouco corpo, meu aparelho estourando meus dentes, minha dificuldade de falar aliada na audição escassa.

Faz muito tempo que não converso com você, no entanto, ainda quero ser Carrie ao seu lado. Como queria eu que Stephen King tivesse sido meu deus com catorze anos! Mas não foi – e eu não te matei – eu quisera.

Você parou de atiçar minha baixa autoestima só em 2011, quando foi embora. Você fez com que Y. quebrasse não só meu coração, mas meus ossos – e até hoje tenho a crença que ninguém vai gostar de mim porque eu sou canhão, eu sou dragão.

Ah, e seu conto virtual: dizendo aos todos alunos de uma escola metodista que em um acampamento escolar um dragão se apaixonou por um ser-humano. Querido, você não vale o chão que pisa. Quiçá, o dragão é você, não por ser feio – não acho justo chama-lo assim -, mas por ser o monstro que é.

Espero que saiba que pessoas não mudam. Provavelmente ainda você é medíocre. Você, adivinha!, afetou todas as minhas relações depois que meu primeiro namoradinho disse que não ia ficar comigo porque eu era muito feia, e todos os amigos da sala o ressacava por isso. Quando perguntei quem começou a história, e que não era feia, disse o seu nome. Acredita que eu disse a ele que eu poderia mudar?

De certo modo, você vai receber essa carta. Fique sabendo que eu perdoo você, mesmo você nunca me dirigindo a vênia, eu perdoo você por sua pequenez como ser-humano.

Espero que nunca sinta a dor que eu senti – agradeça a minha mãe por esse pensamento.

Rancorosamente,

Cacá – talvez você lembre-se do meu apelido somente.

Carta Um.

Querida F.,

A ironia está presente na palavra que antecede o seu, dito, nome: você tornou minha vida o inferno. Esquecerei as boas maneiras, a educação frívola e partirei por que estou lhe enviando essas palavras.

Descobri há pouco tempo que a senhorita foi responsável pela imagem que me marcou desde terna idade (ou sete anos mais propriamente). Suas palavras ardem até hoje em minhas veias. Lembro-me com a memória de uma criança: a sua presença invadindo a minha, chamando-me de menino, bruxa, etc. Uma vez disse-me que nunca poderia sentar com você no intervalo porque eu era nojenta, e não era menina – quem era você para me dizer o que eu sou ou não?

Hoje eu ignoraria, riria, ou até mesmo bateria (como você fez comigo uma vez), no entanto, naquela época você se tornou a noiva do diabo. E confie em mim quando digo que era desposada pelo capiroto, coisa-ruim ou qualquer termo que queira usar.

Eu era uma criança, meus pais me deixaram ser criança até quando eu bem entendesse – e agradeço imensamente por isso -, no entanto, pra você eu era burra também. Não bastasse tornar minha vida social incrédula, espalhando asneiras por aí e dizendo o quanto eu era nojenta por não gostar de usar jeans – o que ainda não gosto.  Lembro-me do seu olhar de desprezo direcionado a mim, e ainda me marca.

Você ficou apenas um ano naquela escola, no entanto, eu completei todo o ensino obrigatório. Por você ser encaixada nos moldes dali: rica, cabelo liso e magra; todos acreditaram em você. Terminei o ensino médio com a mesma imagem que você me deu: feia, burra, nojenta. Só hoje, depois de treze anos, praticamente, sou alguém.

Queria dizer que o que você fez foi maldade. Talvez você precisava de atenção, tivesse inveja de algo que não entendo ou queria estender o que seus pais faziam a você, eu não sei; mas eu não te perdoo. Você me deixou feridas abertas.

Meu pai diz que nós damos importância para os outros: então, é isso, estou lhe dando o cargo de ceifador da minha autoestima quando eu tinha sete anos. Eu espero que você conviva com isso para o resto da sua vida e tenha sensibilidade para não repetir esses feitos.

Passar bem. (ou não tão bem)

Rancorosamente,

Carolina.