De Dirceu.

Agora, minha amada, eu vou embora. Você não faz mais graça ou jogo de sedução entre as cortinas. Você está nua e cálida em cima da minha cama, talvez eu percebi algumas lágrimas em seus olhos da cor de um céu de fim de tarde. Mas você nunca teve sentimento algum, sequer para mim que sempre defendi seus cabelos e pele – estamos neste jogo há quatro anos e alguns dias.

Você ensinou-me coisas que eu não gostaria de saber. Me maltratou como um cão que revira as latas e os restos de comida. Em nenhum momento você me abraçou ou beijou minhas feridas. E agora, no presente tão conturbado que nos encontramos, você chora em meu leito, pedindo para que eu fique, abraçando minhas coxas, implorando e fungando contra minha pele. Eu queria escutar, aceitar, deitar novamente com você, no entanto, não vou. Eu não vou porque você queimou toda a minha alma quando cheguei crua em um processo de aprendizado. Eu não vou ficar porque você não esperou o meu tempo para me magoar, para quebrar meu coração um milhão de vezes, você não quis observar toda a minha dor, a que eu carrego no peito e a que está em minha lombar torta.

Você, tão vil dentro dos seus planos, não me alertou aos amigos falsos, as fofocas tão melindrosas, aos disfarces. Você sabendo de todas as brigas não me contou o inferno que seria esses quatro anos próximo as seriemas. Você não me preparou, mesmo sabendo e tendo poder para isso, a dor, a realidade. Ao contrário: você resolveu enrolar minha alma tão medíocre em algum papel fino e podre.

Você, no começo, mostrou-se simpática e amorosa, empática e cheia de vida, logo beijou-me os cabelos, entrelaçou meus dedos nos seus, abraçou-me pelo quadril. Mas tão logo, cavou minha sepultura. Planejou metodicamente meu funeral. Imagino até a senhora tão cheia de liberdade e paz escrevendo minha lápide! Aqui jaz alguém que sonhou. Você roubou-me todos os sonhos, e roubou os novos sonhos também, você rasgou meus desejos, minhas vontades e meus medos. Você com toda sua ardilosidade moldou-me ao seu bel-prazer, transformando-me em algum monstro apático e cheio de raiva acumulada nas veias. Você (re)construiu-me como alguém que eu nunca quis ser – e não só: alguém que eu teria muito orgulho se o meu passado me olhasse agora. Você quebrou as minhas relações dentro de uma cidade pequena, e não só isso você afastou de mim o cheiro de calçado e guaraná, e me fez acostumar com o cheiro tão comum seu: doce e maconha.

Você me fez desacreditar na revolução, nas frases de efeitos, na burguesia que cria os seus próprios coveiros. Não só isso, minha querida: você deu-me de presente o desejo do definhamento do Estado. Você fez um jogo cansativo de aumentar e diminuir minha crença: eu sou volúvel e etérea hoje, e acreditando em alguma bandeira negra amarrada na minha alma. Você! Ah, você encarou-me com seus olhos fortes e duros e riu quando disse sobre patriarcado, gênero e sexualidade, gargalhou das minhas vontades e quebras, você gargalhou como contasse algo engraçado – e não era engraçado.

Você me deixou conhecer outros amores, amantes e corpos, incentivou-me na verdade. E eu conheci todos os tipos de fios vermelhos que eu poderia conhecer – os nós, os laços, os fios cortados, os remendados. Você incentivou-me e mostrou seu sorriso grandioso para cada vez que eu me enrolava: colocava esses fios no meu próprio pescoço. Em nenhum momento fui enforcada. Você testou seu plano e deu certo: tornei-me à deriva de você, o tédio consumindo-me tão rápido como o fogo. Você adorou isso, é claro! Você me apresentou amigos queridos, tão queridos, que romperam a linha tênue e passaram a ser odiados. Você sabia que aconteceria isso, e por isso ajeitou nossos encontros. Você nunca segurou minha mão quando a casa caiu. Você ainda lança seu sorriso desdenhoso quando comento isso.

Você me transformou de menina a mulher. Você me transformou não com cautela e esperança, como é tão comum, você me jogou numa trincheira – ou você se transforma ou você morre. Vivência ou barbárie – você fala isso e ri, como sempre ri. Você não se importou com sirenes, o abril passado, a primavera fria e as cicatrizes. Você me jogou rosas murchas, impediu que eu entrasse na sua casa. Você me desdenhou.

Você não me deu caminhos retos ou com curvas, você me deu bifurcações, pedras e árvores no meio do caminho, passagens no deserto. Você não me deu ferramentas para eu encarar o apocalipse. O que você me deu foi o umbral e depois o inferno. Você me deu sete infernos! Você me fez desacreditar no Destino, no umbral e no inferno depois. Eu te odeio por tudo isso. Eu odeio o que você fez com o interior dos meus braços, eu odeio o que você fez com o brilho dos meus olhos e com os meus dentes tão retos que agora são tortos.

Mas, Marília, o seu céu é tão lindo.

Acho que vou ficar mais um pouco.

(só mais um pouco.)

 

CID10 Emocionado

O sangue pinga

No ralo do banheiro, em cima da pia

E na hora de escovar os dentes

 

A faca desaparece sutilmente da cozinha

E conhece o sabor da carne humana

Fresca

 

As unhadas vem, são de gatos sim

Cortando as unhas em formato de garra – porque é moda

E casquinhas apodrecidas

 

O sangue é vermelho como a bandeira

Como o cabelo

E os lábios em dias felizes

 

Eles não perceberam as cicatrizes

Estrategicamente escondidas

Como em um mapa-astral

 

O sobretudo e o lenço são retirados da gaveta em

Uma noite quente

Gripe?

Olha a cara, de doente mesmo.

Vai descansar, tomar um chazinho

 

O sangue pinga.

 

Papai.

Em uma briga, meu pai disse que eu dividia as felicidades com os amigos e as tristezas com ele e minha mãe, que isso era injusto com a família.

Gritei para ele uma vez: Eu só tenho tristezas na minha vida!

E na segunda vez: Não tenho amigos!

dissociativo

Querida Figura Transcendental que É Maior que Meu Amor Por Arquivo-X,

Quero deixar bem claro aqui que eu não mudei de lado não – claro que eu fiz Cosplay de Moisés ontem –, infelizmente, vou ter que conversar com você, mas vamos deixar duas coisas extremamente claras:

  1. Se você não existir EU que escolho suas características.
  2. Se existir, você vai ter que lê meus livros. Porque olha, não é possível!

Então, Querida Figura, agora vamos entrar na linguagem ou linguística, as religiões cristãs colocam Jesus numa cruz para salvar a gente (isso sempre me deixou bem incomodada. Por que, sei lá, não faziam aqueles bonecos de cera.De verdade, quando pequena eu tinha dó de Jesus. (E quando descobri o possível casamento com a Madalena, eu torcia bastante porque achava que Jesus muito triste quando vivo). Esse é o Jesus dos protestantes que eu conheço, e sobre os neflins, eu adora a ideia de anjos e mulheres se relacionarem – lembra do filme que o cara morre só pra tocar uma vez a moçada amada, então. Jesus, eu posso estar falando com você também.

A outra religião que conheço é a católica e eu não gosto de vocês pelo simples motivos: venda de terra no céu desde sempre, purgatório (porque se isso existir, tenho certeza, que vou para o purgatório), inquisição, respeitos aos padres e mimimi. Só que eu gosto dos santos e seus significados, esse é o objetivo do meu texto (sou prolixa, viu, pai sei usar palavra não vulgar) mais ou menos, certo?

o que está fazendo lola? você não é tão divertida assim

Então, venhamos. Eu com meus poucos anos, mas ainda sim, velha e amassada está fazendo um projeto seletivo que é quase comercial. Vamos dizer que, bom… lembra do choker, gargantilha? Era horrível. Mesmo ainda sendo, todas as meninas góticas estileiras e tal usam. Eu também uso. Mas é por outro motivo que ninguém entendeu até hoje.

Minha pesquisa é a gargantilha, e não é qualquer gargantilha apesar de ser bonita e charmosa, e ser manuseada com muito cuidado, só que ela não se encaixa não padrão para loja, ninguém quer usá-la. Alguns poucos clientes são fieis e veementes, outros clientes que usam boina, a odeiam porque é modismo. Modismo é esses óculos de marca cara.

Voltemos ao caso dos santos, eu os adorava. Era como se fossem signos dos zodíacos, tinha até para proteger prostitutas. Minha avó gosta de um santo francês! Não sei como é essa conexão espiritual. E também não sei se eles se comunicam tranquilamente, porque minha avó são duas de mim em tudo. Só na altura que não. O nome desse santo é Santo Anto de Maria Claret. Acho que ele só tem duas religiosas, minha avó e alguma camponesa francesa.

Minha avó é muito religiosa, mas muito influenciável. Está tomando uns chás que devem ser (eu fico quieta nesse momento, não lembro como se muda o profixo da palavra alucinar) e não estão fazendo efeito. Ela quer que eu tome o chá e mais uma porrada de remédios que me deixa esquecer como escreve palavras, esses dias eu esqueci como se fala: fetichismo da mercadoria. Brincadeiras a parte.

Não sei exatamente porque eu escrevi isso. Sou uma das personalidades dela e era ontem eu. Eu a tomei seu lugar, Natacha e a Primeira tentaram competir, mas não deu certo. Dolores é um nome muito bonito para a primeira me impedir.

querida você é muito fraca. deixe eu tomar seu corpo

Punk-rock.

Observou o rapaz sair do seu quarto bufando, os cabelos despenteados e a jaqueta jeans cheia de patches pendurada no ombro. O esboço de um sorriso apareceu em seu rosto, e não soube apontar qual foi o motivo: o barulho estrondoso da porta de madeira ou o maço de cigarro esquecido em sua cômoda ou o gato caolho que esgueirava na fresta da porta.

Kafka era gordo, cego de um olho e de orelhas muito pontudas. Apesar de pesar próximo a seis quilos, subia com graça na cama. Afofou com as patinhas o colchão e afundou-se logo nas tranças dos lençóis. Não encarou sua dona nem por um momento. Ele era relativamente insensível as convenções e convicções humanas, inclusive achava pombos mais saboroso que as carnes assadas ou ração – perguntava-se dentro do seu cérebro felino o porquê das pessoas existirem. Claro que sua dona não imaginava que seu pequeno amado era semelhante a paresia do ódio.

Então, ela levantou-se, despreguiçou-se, olhou demoradamente seu rosto no espelho do banheiro e espremeu algum amontoado de acne localizado em sua bochecha; escovou os dentes porcamente e foi para a cozinha. A sua casa era composta de dois andares, muito parecida com lares norte-americanos (sua mãe era iludida com o fazer américa), era uma área rural distante da cidade por 80km, e seus vizinhos poucas vezes apareciam em suas casas de veraneio – se assim podia dizer das casas enfeitadas com piscinas, mato e crianças nas férias de dezembro. Amava a casa, mas odiava seus vizinhos – nada de novo sob o espírito humano. Era professora de filosofia no ensino médio e substituiu o rivotril por triatlo (não que fizesse muito efeito).

Desceu as escadas preguiçosamente e atingiu a cozinha. Grande, iluminada e em tons rosados e azuis. Seu corpo estava cingido por um robe de seda, herança única da sua avó, e tateou o bolso, confirmando se o maço esquecido estava lá – divertiu-se amargamente com o esquecimento do então antigo namorado; ele tinha a deixado pelo que ela fazia, quem esse cara pensava que era? O café esquentou a garganta, amargou a língua e eletrizou a gastrite. Nada de novo para um sábado matutino, o relógio dos pássaros amazônicos apontava quase dez horas.

Saiu de casa finalmente: estava quente e úmido, e sua plantação de rosas vermelhas estava indo bem. Mais distante, se via outra casa, essa pequena e não muito bem-acabada. Hannibal apareceu latindo, correndo e farfalhando na grama. Era um cachorro mediano, acinzentado e de pelos longos; possuía olhos pretos pequenininhos, focinho longo e dentes pequenos e tortos. Preferia dormir ao relento a dentro de casa por algum motivo inconcebível.

“E aí, amorzinho, vai trabalhar com a mamãe hoje?” Sua voz estava afetadíssima. E a resposta veio com uma lambida na cara. “Fique atrás de mim, como sempre, ouviu, meu lindão?”

Enfim, ladeada pelo cão, aproximou-se da casinha que parecia a morada de algum caseiro, a porta era de madeira gasta e falha; existia um buraco na porta e outro na parede, eles se conectavam por uma grossa corrente de metal e cadeado de dez centímetros. Abriu-o com a chave que pendurava no pescoço como um colar.

No canto, três homens, cada um de costa para o outro, estavam amarrados por três ou quatro correias de arame-farpado. Um deles usava uma camiseta estampada em uma cruz celta; o outro, camiseta vermelha com a suástica negra e o terceiro estava com o tórax pelado, mas no peito carregava o 88 tatuado.

“Olá, meninos.” Saudou, sorridente. Agachou perto deles e estapeou um dos três. “Como foi a noite?” O cachorro latiu.

Um caixote de feira (ou pallet na cultura mainstream) continham furadeiras, dois cabos de vassoura, um serrote, um machado sujo e com aparência de muito usado, dois soco-inglês, um taco de baseball, uma raquete, uma chave de vendas, alguns pregos, e um mp3 antigo. Suas mãos pequenas logo pegaram o martelo e o mp3, colocando os fones logo no ouvido; girou o martelo só com uma mão e respirou fundo, soltando o ar profundamente.

A bandeira (vermelha e negra) atrás dos homens foi atingida por sangue e pele. Sua banda favorita estourava seus tímpanos: O que te impede de lutar? O que te impede de falar?

 

 

 

O Demônio e Eu.

O caos me foi presente desde que os meus pingos nos i eram corações minúsculos e arredondados. E ele era provocado somente, e somente, por uma estrela da manhã. A primeira vez que apareceu foi quando eu tinha sete anos. Era um homem negro, muito alto (talvez mais de dois metros de altura), que me estava presente a todo local que olhava e vestia roupas semelhantes aos góticos dos anos 2000.

Acreditava aquela época que era meu anjo da guarda, ledo engano de uma mente inocente. Ele era Lúcifer, Satanás, Satã, o nome que quisera dar – na verdade, segundo tal entidade, disse-me que era todo Mal concentrado, então não era também todos os seres da treva. Não era anjo da guarda, era meu anjo da violência – caído, maléfico, sádico.

Sádico, especialmente.

A primeira vez que ele resolveu aparecer de fato em minha história. Foi na minha primeira transa. Enquanto o rapaz lambia meu pescoço, o Satã me encarava no canto da sala, cantando uma música infantil de ninar. Dessa vez, ele não era meu anjo da guarda, mas sim, a figura do bode peludo e de olhos escuros que me encarava, a ponta dos seus chifres continham laços rosados que amarrei em uma madrugada. Inocente como eu era – lhe dei presentes e desenhos, abraços, confissões. Eu achava que era amor o que ele correspondia, mas era desgraça mesmo, riso e escárnio.

O meu namorado da época parou de beijar meu pescoço e disse que tinha uma dor no baixo ventre. Pediu licença e se dirigiu ao banheiro. A Luz da Manhã aproximou-se a mim e sorriu, seus dentes amarelados, pontiagudos e quebrados:

“Fiz uma surpresinha para você.” O encarei, erguendo as sobrancelhas. “Em cinco segundos, seu amor sairá com o embrulho.”

Eu acreditei, realmente, que era uma surpresa. Um presente. Quanta felicidade para os meus dezesseis anos! – e novamente, minha ingenuidade se surpreendeu. O namorado da época, baixinho e truculento, estava de calças arriadas e seu órgão sexual dividido, mui semelhante a uma flor de lótus vermelha. Eu não tive nem a capacidade de ouvir seus urros de dor (possivelmente) e pavor. Estatelada ali na cama, sem sutiã, semi-nua e com o demônio da altura do quarto, atrás do meu possível namorado. De repente, sem mais delongas, o rapaz desmaiou. Mole como doce podre.

“Você precisa melhor o gosto para homens, querida.” Lúcifer comentou, cutucando o adolescente com o pé cascudo de bode. “Não aguentou nem uma surpresa. Lembra-me quando disse que queria flores em sua primeira vez.”

“Que primeira vez?” Respondi atordoada. “Você acabou de matá-lo! Serei comida por minhocas!”

“Você gosta de minhocas?” Ele perguntou, demasiadamente, curioso. Por um momento, tive medo de que saísse montes de minhocas do pênis do meu namorado a massa gosmenta de esperma.

“Não!” Gritei exasperada, jogando as almofadas vermelhas e roxas do motel barato no peito peludo e endiabrado.

* * *

 

Eu entrei, enfim, na faculdade; ao lado da minha cidade, sem delongas sobre mudanças de casa e rotina. Luz da Manhã não apareceu durante dois anos e eu sentia sua falta. Não por gostar de sua alma – se é que existia alguma -, mas pela rotina, pela azucrinação que exercia em mim. Pelas peripécias violentas que ladeavam meus pés conforme eu trilhava meu caminho – mortes, sangues, transfigurações. O namorado baixinho e truculento foi internado em um hospital psiquiátrico, pois seu órgão estava em perfeito estado, mas jurava que era uma flor de lótus. O visitei algumas vezes e em todas elas ele gritava, chamando-me de noiva do demônio. Talvez eu era mesmo.

Minha vida era normal. Exceto pelo não-medo de ruas escuras, filmes de terror e homens héteros. Se eu dormia com o demônio no meu quarto desde os três anos de idade, o que no mundo terreno me incomodaria? Pênis? Dinheiro? Filmes baratos de exorcismos? Meu medo estava mais limitado para que lugar eu iria se eu morresse. Já que o capeta existia, então deus também existia. Duvido muito que o senhor-todo-poderoso me abrigaria em seu palácio. E confesso que não era da minha vontade seguir a eternidade com Luz da Manhã. Se treze com anos foi infernal (com o perdão do trocadilho), a eternidade seria mais triste que a vida.

Como a minha vida é bastante singular, Luz da Manhã apareceu um mês antes do meu aniversário. Ele deitou-se na minha cama enquanto eu fumava um marlboro vermelho e disse que o cigarro iria me matar, necrosar meus pulmões.

“Fume Cammel, é menos mortal.” Seu hálito continuava fétido e quente. E quando levantei o dedo do meio para ele, continuou: “Vou anotar isso em meu diário sobre sua morte.” E levantei as duas mãos com os dedos do meio em riste, o cigarro pendente entre os lábios.

Ele me acompanhou insistente: nas aulas de cálculo, nas aulas práticas, até mesmo usou capacete de segurança amarelo quando minha turma foi para uma obra civil de uma ponte. As pessoas se afastaram de mim. E minha melhor amiga, muito esotérica, resolveu jogar pó de tijolo em frente de casa.

Quando isto aconteceu, Luz da Manhã entrou em minha mente.

porra natascha que que é isso você tá louca eu vou matar você quem foi o filho da mãe que jogou esse maldito pó de tijolo na frente da sua casa e esse espelho com passe porra natascha qual é seu problema vou acabar com sua vida limpe esse pó da frente da sua casa

Pedi para que ele falasse com educação.

não vou falar com educação não natascha eu que mando em você

Você que manda em mim?

por favor natascha limpe a sua calçada

O demônio sendo educado comigo. Peguei o cigarro aceso e queimei o lado interno do meu braço.

 

* * *

 

Meu aniversário era uma semana antes do Natal. E minha família estava em êxtase, os parentes do sul viriam nos visitar, meu pai tinha dado um carro seminovo para que eu andasse para cima e para baixo, e meu irmão mais velho estava noivo enquanto a minha irmã mais nova tinha passado com glória para o ensino médio.

Novamente, eu fumando, Luz da Manhã apareceu. Estava com sua forma natural. Um grande mocergo humanoide vermelho com chifres e pés de bodes; sorria, os mesmos dentes amarelados e quebrados.

“Tenho uma surpresa de aniversário! ” Ele cantou, a voz grossa. “Vamos, vamos! ” Disse-me, suas mãos grande e de unhas imensas pontiagudas espalmadas nas minhas costas me conduzindo a direção da garagem.

A figura demoníaca sentou-se ao banco do passageiro. O gol prateado era minúsculo, e ele parecia um palhaço em suas brincadeiras idiotas sobre sair cinco homens de um fusca. Seus dedos trambolhavam o painel do carro, uma criança animada.

Induziu-me para um campo afastado. Lá distante, havia uma árvore extremamente cheia de folhas verdes e frutas que pareciam maçãs, arredondadas, vermelhas e mesmo que pequenas, maciças. Ele apontou para a planta e disse, ali está seu presente. Minhas pernas se flexionaram e eu corri enlouquecidamente, animada. Tinha ganhado uma árvore de presente de aniversário!

O terror veio: não eram maçãs, eram mãos. De crianças. Ensanguentadas. E o demônio estava ao meu lado, sorrindo pelo presente dado.

Purgatório.

I

A suntuosidade do espiral que me tragou era, no mínimo, assustadora: os caracóis dourados e negros engolfavam com ardor meus punhos, pescoço e mamilos. A Morte, que eu tanto esperava, não apareceu em seu manto negro e face magra, ela apenas me chutou, como criança endiabrada que chuta um cachorro na rua no hall muito parecido com um purgatório – a imagem católica de purgatório: estava ali, caída, estatelada, em um corredor longe, onde não se via começo nem fim, estreito e a única luz, sem fonte primária e secundária, acima da minha cabeça.

Levantei-me, e pela primeira vez me senti limpa. Sem roupa, sem joelhos sujos ou terra sob as unhas. Meus cabelos perderam o aspecto de palha que tanto o acompanhou, caía em uma forma não conhecida pela vida. A cor da minha pele era uma cor não visível em olhos vivos. Surpreendi-me com a beleza e a estranheza da situação. Ouvi um tossido baixo ao meu lado (e pela primeira vez escutei plenamente em toda minha vida) e observei meu gato, já falecido há alguns anos, em cima de suas patas traseiras, tendo aspecto de humano em um corpo felino. Pensei em vomitar, no entanto, não tinha mais órgãos. Senti atentamente a falta do meu estômago, fígado e rins, que tanto me doía; e em seguida, o silêncio – não havia o som da pulsação do meu coração, o barulho de engrenagens do meu cérebro e muito menos minhas narinas dilatavam. Era o silêncio estarrecedor – puro e consistente.

Em seguida, ainda em processo de torpor, dei-me conta que meu animal de estimação vestia terno. A casaca acinzentada, a gravata de um roxo profundo e os sapatinhos sociais; detrás de um dos seus olhos azuis, permanecia um monóculo.

“É Armani.” Falou-me calmamente. “E meu nome não é mais Jaguar, sou Tot.” Meu gato criado no interior de São Paulo se dizendo deus egípcio. “Talvez eu realmente seja ele.” Pisquei aturdida.

Um flash veio em mim, a criação judaico-cristã não me desvencilhava nem no limbo: por que eu tinha corpo se estava morta? Um corpo oco, mas corpo. Palpável – toquei-me na face e barriga, e elas estavam ali. Talvez, por alguma desgraça natural, na profundeza do meu âmago eu era materialista e frívola, sendo que me achava em tão nível superior a intelectualidade humana de uma jovem adulta. Culpei rapidamente a religião, o meu ateísmo e todo meu ser. Se eu soubesse que morrer era tão alegórico preferia ter ficado viva – e não injetado dois pinos de cocaína pura com o objetivo único e certeiro de suicídio. Ri desgraçadamente: uma suicida se arrependendo da morte, o quão infernal era isso?

Neste momento, percebi que estava pendendo no espaço galáctico, tocava os mundos, as estrelas e os anéis de saturnos. Plutão era menor que eu esperava e Marte mais bonito; analisei fantástica as outras vidas, essas extraterrestres, semelhantes a animais marinhos e alguma música dos Novos Baianos tocava no Universo que devia ser silencioso. Novamente, fui puxada: dessa vez, por tentáculos gélidos, que me dera um tranco.

II

Pairava, como assistente mágica, em cima de um corpo. Observei as sobrancelhas falhadas, as pálpebras fechadas e os cílios ralos e duros escapando, como perninhas de aranha, e esperei atentamente uma delas sair daquele olho oculto. A pele estava azuladamente pálida. Pequenos pontos marrons espalhavam-se no nariz, nas bochechas e testa. Lábios magros e estreitos.

“Vou sentir sua falta.” A voz da minha mãe atingiu-me. Estava me encarando morta, a carcaça do meu corpo. A casa da tartaruga.

Observei Bárbara terminar de me vestir com a minha roupa favorita. Inclinou-se sobre meu rosto, beijou-me na testa – beijo estalado que não senti – e começou a me maquilar. Ai, Bárbara, por que tão amorosa? Se tão amorosa por que bárbara? Cantou uma música dos Paralamas do Sucesso, calma e sutil como os efeitos de calmantes. Seus olhos claros estavam estalados pela dor e pelo medo, e eu quis abraçá-la. Pediu para que deus me abençoasse e disse que me amava. Eu também te amo: ela, aquela mulher, permaneceu sólida na minha frente, como se esperasse a resposta que nunca viria, pois eu, eu ali, estava morta. Onde estava o demônio para engolfar-me para as profundezas do inferno?

“Tem certeza disso? ” Jurava que era o som de um grilo: virei-me e um morcego humanoide de cor avermelhada estava na porta da sala. A voz do capeta era de um grilo? Ele pareceu escutar meu pensamento (e era pensamento se eu estava morta?) e sorriu, seus dentes eram brancos, pequenos e pontiagudos. Trajava uma fantasia barata de Elvis Presley. “Sua mãe acredita em mim, eis que estou aqui.”

“Ela não acredita em você.” Respondi automática, encarando os brilhos de plástico em sua vestimenta exagerada.   O demônio falava comigo: que espécie de alegoria era aquela? Lembrei-me das minhas aulas de literatura e arte e tudo parecia uma espécie de borrão. Meu avô um dia me disse que o diabo era velho, e eu acreditei.

“Você não acredita em anjos, então não pode vê-los.”

“Eu não acredito em você e cá está o capeta.” Respondi rapidamente, apontando para o pequeno tufo loiro que saía do seu decote.

“Eu sou a ansiedade.” Ele sorriu divertido.

A ansiedade vestida de Elvis, só dava para ser mais irônico se ele se vestisse de John Lenon. E minha mãe contemplava o rosto morto da filha. Me matei para ter paz, e não essa encenação. Cadê a minha paz? A porta bateu com força, e eu e o diabo-ansiedade viramos o rosto.

“Por que vocês estão aqui? Ela é minha!” Observei um homem e uma mulher entrarem no local, mesmo com a porta fechada, sem sinal de movimento. O diabo-ansiedade se moveu rapidamente, mostrando o dedo do meio para a moça com chapéu panamá com uma fita vermelha.

Era Maria Navalha e na mão dela, existia uma navalha, mas não era dela – um pequeno escorpião e em baixo meu nome estavam talhados. O homem ao lado dela. O conhecia, orelhas pontudas e de abano, e em seu terno, preso na lapela, tinha uma barata dourada que mexia as patinhas.

Era Kafka.

Caralho. Era o Kafka e a Maria Navalha! A cocaína que eu comprei realmente era das boas.