À um bruxo, com amor

O Rio de Janeiro me engolia com seu clima quente e único. O suor empapava meu cabelo curto, a nuca pelada e as dobras articulares, transformando-me num casulo oleoso de carne e osso. A bolsa de pano ecológica pesava ainda mais na subida, temia que os alimentos rolassem como em um filme de comédia vulgar (que as batatas fiquem paradinhas, pensei com uma dose forte de ironia). A casa caindo aos pedaços apareceu e logo entrei nela. Sua varanda, constantemente cuidada por mim, continha plantas variadas junto com flores que logo morreriam, uma parede viva de trepadeira e em um canto suculentas arroxeadas.

A maçaneta virou antes que a tocasse.

Sua figura era, no mínimo, estranha; seus olhos eram rasgados e pequenos, a barba mal-feita se ondulava para fora (as pontas iam e vinham de maneira desigual, uma para cada lado). Esse alguém seria meu tio-tataravô: os óculos miúdos e caídos até aponta do nariz, a cor negra – que ele chamava de mulata – e os cabelos escassos e despenteados. Qualquer livro de literatura o trazia numa gravura acinzentada e de pouca precisão.

“Oi, Machado.” Cumprimentei sem humor algum. As pessoas endeusava-o por não conhecê-lo. Era ranzinza, implicante e debochado. No fundo, infelizmente, éramos iguais – só uma pequena mudança de idade: eu com meus (eternos) 25 anos e ele com, bom, algumas centenas de anos, acredito.

“Já disse que não é para senhorita me chamar assim.” Escancarou a porta para eu entrar, espiou a rua e logo fechou. “Posso ser descoberto e o infortúnio cairá sobre essa cidade!” Ele não gaguejou dessa vez, percebi, e ele pareceu ter notado meu pensamento. “Estou assistindo aula de teatro no YouTube – grande aprendizagem esse YouTube!”

“Ninguém vai te reconhecer.” Comentei, me encaminhando para a cozinha. O gato cinza chamado Bacamarte roçou em meus pés e não resisti a oferecê-lo sardinha enlatada.

Machado estava a minha frente como passe de mágica – e essa analogia é tão barata que faz a maldição que me pesa o sobrenome queimar o meu sangue -, mexia com rapidez e desespero as mãos. “Se acalme. Eu comprei o açúcar e o sal.” O homem pela época vivida enquanto humano sofria de uma estrutura pobre sobre alimentos e agora estocava esses pouco úteis para um apocalipse – café em pó, açúcar e sal, sushis congelados e tacos semi-prontos.

“Sabia que as pessoas me conhecem?” Ele comentou enfiando o fumo no cachimbo – anotei mentalmente de um dia fazer ele experimentar maconha e ritalina, talvez fora de si ele me explicaria seu texto pouco acessível. “Inclusive todos sabem meu posto!” Exclamou como um feiticeiro, erguendo as mãos para o céu em formato de garras. “O Bruxo do Cosme Velho! Estamos arruinado! Faleceremos sobre o mármore do inferno.” Não pude deixar de sorrir. Sua voz, neste momento, era burlesca e rouca. Um descendente de Merlin?

“Acham que você é bruxo porque queimava papéis em um caldeirão lá no fundo.” Cocei a cabeça. “E também por não ser uma pessoa de boa.”

“De boa? ”

“Sim.”

“O que é isso?”

“É uma característica para descrever algo que é tranquilo, calmo, sem importância.”

“Eu sou sem imp-?”

Barcamante enroscou nos pés o velho e miou alto, lembrando a Machado sua posição na cultura brasileira. Barca, como eu o chamava afetuosamente, era mais velho até mesmo que o escritor grosseiro.

“Eu não queimava papéis, eram poções.” Contou. “Ganhei o posto de bruxo após ganhar uma competição.  Todos os outros eram fracos e corruptos para assumir esse papel.” Voltou para a sala. “Se o Rio de Janeiro está assim com os meus poderes: eu evito os vampiros, demônios, dragões de alta espécime.”

“Por que escrevia se era bruxo?” .

“Tudo que fiz é um grimório que só o dono, eu, entendo. Vocês ACHAM que entende alguma coisa. Discutir se a Capitu traiu ou não o Bento? Os olhos de Capitu? Como vocês são rasos! Discutissem que Bentinho é alguém que errou um feitiço!” Jogou as mãos para o alto, como se largasse algo no chão.

“Uma amiga acha que o Bentinho tinha ciúmes de Edgar porque eles eram amantes.”

Estourou em risadas e emendou sem ar:

“Excelente. Chame-a um dia.”

“Ela tem o nome da Sra. Xavier de Novais…” Sussurrei, esperando sua pior reação.

Joaquim me encarou com os olhos tristes, aspirou com força o cachimbo e fez carinho no pequeno felino que se aconchegava no seu colo.

“Hades tem um gosto muito peculiar. Primeiro, roubou Perséfone, depois minha pobre querida… Viva, no submundo.” Ele suspirou forte. Eu quase vi uma lágrima saindo do seu olho esquerdo.

 

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