De Dirceu.

Agora, minha amada, eu vou embora. Você não faz mais graça ou jogo de sedução entre as cortinas. Você está nua e cálida em cima da minha cama, talvez eu percebi algumas lágrimas em seus olhos da cor de um céu de fim de tarde. Mas você nunca teve sentimento algum, sequer para mim que sempre defendi seus cabelos e pele – estamos neste jogo há quatro anos e alguns dias.

Você ensinou-me coisas que eu não gostaria de saber. Me maltratou como um cão que revira as latas e os restos de comida. Em nenhum momento você me abraçou ou beijou minhas feridas. E agora, no presente tão conturbado que nos encontramos, você chora em meu leito, pedindo para que eu fique, abraçando minhas coxas, implorando e fungando contra minha pele. Eu queria escutar, aceitar, deitar novamente com você, no entanto, não vou. Eu não vou porque você queimou toda a minha alma quando cheguei crua em um processo de aprendizado. Eu não vou ficar porque você não esperou o meu tempo para me magoar, para quebrar meu coração um milhão de vezes, você não quis observar toda a minha dor, a que eu carrego no peito e a que está em minha lombar torta.

Você, tão vil dentro dos seus planos, não me alertou aos amigos falsos, as fofocas tão melindrosas, aos disfarces. Você sabendo de todas as brigas não me contou o inferno que seria esses quatro anos próximo as seriemas. Você não me preparou, mesmo sabendo e tendo poder para isso, a dor, a realidade. Ao contrário: você resolveu enrolar minha alma tão medíocre em algum papel fino e podre.

Você, no começo, mostrou-se simpática e amorosa, empática e cheia de vida, logo beijou-me os cabelos, entrelaçou meus dedos nos seus, abraçou-me pelo quadril. Mas tão logo, cavou minha sepultura. Planejou metodicamente meu funeral. Imagino até a senhora tão cheia de liberdade e paz escrevendo minha lápide! Aqui jaz alguém que sonhou. Você roubou-me todos os sonhos, e roubou os novos sonhos também, você rasgou meus desejos, minhas vontades e meus medos. Você com toda sua ardilosidade moldou-me ao seu bel-prazer, transformando-me em algum monstro apático e cheio de raiva acumulada nas veias. Você (re)construiu-me como alguém que eu nunca quis ser – e não só: alguém que eu teria muito orgulho se o meu passado me olhasse agora. Você quebrou as minhas relações dentro de uma cidade pequena, e não só isso você afastou de mim o cheiro de calçado e guaraná, e me fez acostumar com o cheiro tão comum seu: doce e maconha.

Você me fez desacreditar na revolução, nas frases de efeitos, na burguesia que cria os seus próprios coveiros. Não só isso, minha querida: você deu-me de presente o desejo do definhamento do Estado. Você fez um jogo cansativo de aumentar e diminuir minha crença: eu sou volúvel e etérea hoje, e acreditando em alguma bandeira negra amarrada na minha alma. Você! Ah, você encarou-me com seus olhos fortes e duros e riu quando disse sobre patriarcado, gênero e sexualidade, gargalhou das minhas vontades e quebras, você gargalhou como contasse algo engraçado – e não era engraçado.

Você me deixou conhecer outros amores, amantes e corpos, incentivou-me na verdade. E eu conheci todos os tipos de fios vermelhos que eu poderia conhecer – os nós, os laços, os fios cortados, os remendados. Você incentivou-me e mostrou seu sorriso grandioso para cada vez que eu me enrolava: colocava esses fios no meu próprio pescoço. Em nenhum momento fui enforcada. Você testou seu plano e deu certo: tornei-me à deriva de você, o tédio consumindo-me tão rápido como o fogo. Você adorou isso, é claro! Você me apresentou amigos queridos, tão queridos, que romperam a linha tênue e passaram a ser odiados. Você sabia que aconteceria isso, e por isso ajeitou nossos encontros. Você nunca segurou minha mão quando a casa caiu. Você ainda lança seu sorriso desdenhoso quando comento isso.

Você me transformou de menina a mulher. Você me transformou não com cautela e esperança, como é tão comum, você me jogou numa trincheira – ou você se transforma ou você morre. Vivência ou barbárie – você fala isso e ri, como sempre ri. Você não se importou com sirenes, o abril passado, a primavera fria e as cicatrizes. Você me jogou rosas murchas, impediu que eu entrasse na sua casa. Você me desdenhou.

Você não me deu caminhos retos ou com curvas, você me deu bifurcações, pedras e árvores no meio do caminho, passagens no deserto. Você não me deu ferramentas para eu encarar o apocalipse. O que você me deu foi o umbral e depois o inferno. Você me deu sete infernos! Você me fez desacreditar no Destino, no umbral e no inferno depois. Eu te odeio por tudo isso. Eu odeio o que você fez com o interior dos meus braços, eu odeio o que você fez com o brilho dos meus olhos e com os meus dentes tão retos que agora são tortos.

Mas, Marília, o seu céu é tão lindo.

Acho que vou ficar mais um pouco.

(só mais um pouco.)