Punk-rock.

Observou o rapaz sair do seu quarto bufando, os cabelos despenteados e a jaqueta jeans cheia de patches pendurada no ombro. O esboço de um sorriso apareceu em seu rosto, e não soube apontar qual foi o motivo: o barulho estrondoso da porta de madeira ou o maço de cigarro esquecido em sua cômoda ou o gato caolho que esgueirava na fresta da porta.

Kafka era gordo, cego de um olho e de orelhas muito pontudas. Apesar de pesar próximo a seis quilos, subia com graça na cama. Afofou com as patinhas o colchão e afundou-se logo nas tranças dos lençóis. Não encarou sua dona nem por um momento. Ele era relativamente insensível as convenções e convicções humanas, inclusive achava pombos mais saboroso que as carnes assadas ou ração – perguntava-se dentro do seu cérebro felino o porquê das pessoas existirem. Claro que sua dona não imaginava que seu pequeno amado era semelhante a paresia do ódio.

Então, ela levantou-se, despreguiçou-se, olhou demoradamente seu rosto no espelho do banheiro e espremeu algum amontoado de acne localizado em sua bochecha; escovou os dentes porcamente e foi para a cozinha. A sua casa era composta de dois andares, muito parecida com lares norte-americanos (sua mãe era iludida com o fazer américa), era uma área rural distante da cidade por 80km, e seus vizinhos poucas vezes apareciam em suas casas de veraneio – se assim podia dizer das casas enfeitadas com piscinas, mato e crianças nas férias de dezembro. Amava a casa, mas odiava seus vizinhos – nada de novo sob o espírito humano. Era professora de filosofia no ensino médio e substituiu o rivotril por triatlo (não que fizesse muito efeito).

Desceu as escadas preguiçosamente e atingiu a cozinha. Grande, iluminada e em tons rosados e azuis. Seu corpo estava cingido por um robe de seda, herança única da sua avó, e tateou o bolso, confirmando se o maço esquecido estava lá – divertiu-se amargamente com o esquecimento do então antigo namorado; ele tinha a deixado pelo que ela fazia, quem esse cara pensava que era? O café esquentou a garganta, amargou a língua e eletrizou a gastrite. Nada de novo para um sábado matutino, o relógio dos pássaros amazônicos apontava quase dez horas.

Saiu de casa finalmente: estava quente e úmido, e sua plantação de rosas vermelhas estava indo bem. Mais distante, se via outra casa, essa pequena e não muito bem-acabada. Hannibal apareceu latindo, correndo e farfalhando na grama. Era um cachorro mediano, acinzentado e de pelos longos; possuía olhos pretos pequenininhos, focinho longo e dentes pequenos e tortos. Preferia dormir ao relento a dentro de casa por algum motivo inconcebível.

“E aí, amorzinho, vai trabalhar com a mamãe hoje?” Sua voz estava afetadíssima. E a resposta veio com uma lambida na cara. “Fique atrás de mim, como sempre, ouviu, meu lindão?”

Enfim, ladeada pelo cão, aproximou-se da casinha que parecia a morada de algum caseiro, a porta era de madeira gasta e falha; existia um buraco na porta e outro na parede, eles se conectavam por uma grossa corrente de metal e cadeado de dez centímetros. Abriu-o com a chave que pendurava no pescoço como um colar.

No canto, três homens, cada um de costa para o outro, estavam amarrados por três ou quatro correias de arame-farpado. Um deles usava uma camiseta estampada em uma cruz celta; o outro, camiseta vermelha com a suástica negra e o terceiro estava com o tórax pelado, mas no peito carregava o 88 tatuado.

“Olá, meninos.” Saudou, sorridente. Agachou perto deles e estapeou um dos três. “Como foi a noite?” O cachorro latiu.

Um caixote de feira (ou pallet na cultura mainstream) continham furadeiras, dois cabos de vassoura, um serrote, um machado sujo e com aparência de muito usado, dois soco-inglês, um taco de baseball, uma raquete, uma chave de vendas, alguns pregos, e um mp3 antigo. Suas mãos pequenas logo pegaram o martelo e o mp3, colocando os fones logo no ouvido; girou o martelo só com uma mão e respirou fundo, soltando o ar profundamente.

A bandeira (vermelha e negra) atrás dos homens foi atingida por sangue e pele. Sua banda favorita estourava seus tímpanos: O que te impede de lutar? O que te impede de falar?

 

 

 

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