O Demônio e Eu.

O caos me foi presente desde que os meus pingos nos i eram corações minúsculos e arredondados. E ele era provocado somente, e somente, por uma estrela da manhã. A primeira vez que apareceu foi quando eu tinha sete anos. Era um homem negro, muito alto (talvez mais de dois metros de altura), que me estava presente a todo local que olhava e vestia roupas semelhantes aos góticos dos anos 2000.

Acreditava aquela época que era meu anjo da guarda, ledo engano de uma mente inocente. Ele era Lúcifer, Satanás, Satã, o nome que quisera dar – na verdade, segundo tal entidade, disse-me que era todo Mal concentrado, então não era também todos os seres da treva. Não era anjo da guarda, era meu anjo da violência – caído, maléfico, sádico.

Sádico, especialmente.

A primeira vez que ele resolveu aparecer de fato em minha história. Foi na minha primeira transa. Enquanto o rapaz lambia meu pescoço, o Satã me encarava no canto da sala, cantando uma música infantil de ninar. Dessa vez, ele não era meu anjo da guarda, mas sim, a figura do bode peludo e de olhos escuros que me encarava, a ponta dos seus chifres continham laços rosados que amarrei em uma madrugada. Inocente como eu era – lhe dei presentes e desenhos, abraços, confissões. Eu achava que era amor o que ele correspondia, mas era desgraça mesmo, riso e escárnio.

O meu namorado da época parou de beijar meu pescoço e disse que tinha uma dor no baixo ventre. Pediu licença e se dirigiu ao banheiro. A Luz da Manhã aproximou-se a mim e sorriu, seus dentes amarelados, pontiagudos e quebrados:

“Fiz uma surpresinha para você.” O encarei, erguendo as sobrancelhas. “Em cinco segundos, seu amor sairá com o embrulho.”

Eu acreditei, realmente, que era uma surpresa. Um presente. Quanta felicidade para os meus dezesseis anos! – e novamente, minha ingenuidade se surpreendeu. O namorado da época, baixinho e truculento, estava de calças arriadas e seu órgão sexual dividido, mui semelhante a uma flor de lótus vermelha. Eu não tive nem a capacidade de ouvir seus urros de dor (possivelmente) e pavor. Estatelada ali na cama, sem sutiã, semi-nua e com o demônio da altura do quarto, atrás do meu possível namorado. De repente, sem mais delongas, o rapaz desmaiou. Mole como doce podre.

“Você precisa melhor o gosto para homens, querida.” Lúcifer comentou, cutucando o adolescente com o pé cascudo de bode. “Não aguentou nem uma surpresa. Lembra-me quando disse que queria flores em sua primeira vez.”

“Que primeira vez?” Respondi atordoada. “Você acabou de matá-lo! Serei comida por minhocas!”

“Você gosta de minhocas?” Ele perguntou, demasiadamente, curioso. Por um momento, tive medo de que saísse montes de minhocas do pênis do meu namorado a massa gosmenta de esperma.

“Não!” Gritei exasperada, jogando as almofadas vermelhas e roxas do motel barato no peito peludo e endiabrado.

* * *

 

Eu entrei, enfim, na faculdade; ao lado da minha cidade, sem delongas sobre mudanças de casa e rotina. Luz da Manhã não apareceu durante dois anos e eu sentia sua falta. Não por gostar de sua alma – se é que existia alguma -, mas pela rotina, pela azucrinação que exercia em mim. Pelas peripécias violentas que ladeavam meus pés conforme eu trilhava meu caminho – mortes, sangues, transfigurações. O namorado baixinho e truculento foi internado em um hospital psiquiátrico, pois seu órgão estava em perfeito estado, mas jurava que era uma flor de lótus. O visitei algumas vezes e em todas elas ele gritava, chamando-me de noiva do demônio. Talvez eu era mesmo.

Minha vida era normal. Exceto pelo não-medo de ruas escuras, filmes de terror e homens héteros. Se eu dormia com o demônio no meu quarto desde os três anos de idade, o que no mundo terreno me incomodaria? Pênis? Dinheiro? Filmes baratos de exorcismos? Meu medo estava mais limitado para que lugar eu iria se eu morresse. Já que o capeta existia, então deus também existia. Duvido muito que o senhor-todo-poderoso me abrigaria em seu palácio. E confesso que não era da minha vontade seguir a eternidade com Luz da Manhã. Se treze com anos foi infernal (com o perdão do trocadilho), a eternidade seria mais triste que a vida.

Como a minha vida é bastante singular, Luz da Manhã apareceu um mês antes do meu aniversário. Ele deitou-se na minha cama enquanto eu fumava um marlboro vermelho e disse que o cigarro iria me matar, necrosar meus pulmões.

“Fume Cammel, é menos mortal.” Seu hálito continuava fétido e quente. E quando levantei o dedo do meio para ele, continuou: “Vou anotar isso em meu diário sobre sua morte.” E levantei as duas mãos com os dedos do meio em riste, o cigarro pendente entre os lábios.

Ele me acompanhou insistente: nas aulas de cálculo, nas aulas práticas, até mesmo usou capacete de segurança amarelo quando minha turma foi para uma obra civil de uma ponte. As pessoas se afastaram de mim. E minha melhor amiga, muito esotérica, resolveu jogar pó de tijolo em frente de casa.

Quando isto aconteceu, Luz da Manhã entrou em minha mente.

porra natascha que que é isso você tá louca eu vou matar você quem foi o filho da mãe que jogou esse maldito pó de tijolo na frente da sua casa e esse espelho com passe porra natascha qual é seu problema vou acabar com sua vida limpe esse pó da frente da sua casa

Pedi para que ele falasse com educação.

não vou falar com educação não natascha eu que mando em você

Você que manda em mim?

por favor natascha limpe a sua calçada

O demônio sendo educado comigo. Peguei o cigarro aceso e queimei o lado interno do meu braço.

 

* * *

 

Meu aniversário era uma semana antes do Natal. E minha família estava em êxtase, os parentes do sul viriam nos visitar, meu pai tinha dado um carro seminovo para que eu andasse para cima e para baixo, e meu irmão mais velho estava noivo enquanto a minha irmã mais nova tinha passado com glória para o ensino médio.

Novamente, eu fumando, Luz da Manhã apareceu. Estava com sua forma natural. Um grande mocergo humanoide vermelho com chifres e pés de bodes; sorria, os mesmos dentes amarelados e quebrados.

“Tenho uma surpresa de aniversário! ” Ele cantou, a voz grossa. “Vamos, vamos! ” Disse-me, suas mãos grande e de unhas imensas pontiagudas espalmadas nas minhas costas me conduzindo a direção da garagem.

A figura demoníaca sentou-se ao banco do passageiro. O gol prateado era minúsculo, e ele parecia um palhaço em suas brincadeiras idiotas sobre sair cinco homens de um fusca. Seus dedos trambolhavam o painel do carro, uma criança animada.

Induziu-me para um campo afastado. Lá distante, havia uma árvore extremamente cheia de folhas verdes e frutas que pareciam maçãs, arredondadas, vermelhas e mesmo que pequenas, maciças. Ele apontou para a planta e disse, ali está seu presente. Minhas pernas se flexionaram e eu corri enlouquecidamente, animada. Tinha ganhado uma árvore de presente de aniversário!

O terror veio: não eram maçãs, eram mãos. De crianças. Ensanguentadas. E o demônio estava ao meu lado, sorrindo pelo presente dado.

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