Purgatório.

I

A suntuosidade do espiral que me tragou era, no mínimo, assustadora: os caracóis dourados e negros engolfavam com ardor meus punhos, pescoço e mamilos. A Morte, que eu tanto esperava, não apareceu em seu manto negro e face magra, ela apenas me chutou, como criança endiabrada que chuta um cachorro na rua no hall muito parecido com um purgatório – a imagem católica de purgatório: estava ali, caída, estatelada, em um corredor longe, onde não se via começo nem fim, estreito e a única luz, sem fonte primária e secundária, acima da minha cabeça.

Levantei-me, e pela primeira vez me senti limpa. Sem roupa, sem joelhos sujos ou terra sob as unhas. Meus cabelos perderam o aspecto de palha que tanto o acompanhou, caía em uma forma não conhecida pela vida. A cor da minha pele era uma cor não visível em olhos vivos. Surpreendi-me com a beleza e a estranheza da situação. Ouvi um tossido baixo ao meu lado (e pela primeira vez escutei plenamente em toda minha vida) e observei meu gato, já falecido há alguns anos, em cima de suas patas traseiras, tendo aspecto de humano em um corpo felino. Pensei em vomitar, no entanto, não tinha mais órgãos. Senti atentamente a falta do meu estômago, fígado e rins, que tanto me doía; e em seguida, o silêncio – não havia o som da pulsação do meu coração, o barulho de engrenagens do meu cérebro e muito menos minhas narinas dilatavam. Era o silêncio estarrecedor – puro e consistente.

Em seguida, ainda em processo de torpor, dei-me conta que meu animal de estimação vestia terno. A casaca acinzentada, a gravata de um roxo profundo e os sapatinhos sociais; detrás de um dos seus olhos azuis, permanecia um monóculo.

“É Armani.” Falou-me calmamente. “E meu nome não é mais Jaguar, sou Tot.” Meu gato criado no interior de São Paulo se dizendo deus egípcio. “Talvez eu realmente seja ele.” Pisquei aturdida.

Um flash veio em mim, a criação judaico-cristã não me desvencilhava nem no limbo: por que eu tinha corpo se estava morta? Um corpo oco, mas corpo. Palpável – toquei-me na face e barriga, e elas estavam ali. Talvez, por alguma desgraça natural, na profundeza do meu âmago eu era materialista e frívola, sendo que me achava em tão nível superior a intelectualidade humana de uma jovem adulta. Culpei rapidamente a religião, o meu ateísmo e todo meu ser. Se eu soubesse que morrer era tão alegórico preferia ter ficado viva – e não injetado dois pinos de cocaína pura com o objetivo único e certeiro de suicídio. Ri desgraçadamente: uma suicida se arrependendo da morte, o quão infernal era isso?

Neste momento, percebi que estava pendendo no espaço galáctico, tocava os mundos, as estrelas e os anéis de saturnos. Plutão era menor que eu esperava e Marte mais bonito; analisei fantástica as outras vidas, essas extraterrestres, semelhantes a animais marinhos e alguma música dos Novos Baianos tocava no Universo que devia ser silencioso. Novamente, fui puxada: dessa vez, por tentáculos gélidos, que me dera um tranco.

II

Pairava, como assistente mágica, em cima de um corpo. Observei as sobrancelhas falhadas, as pálpebras fechadas e os cílios ralos e duros escapando, como perninhas de aranha, e esperei atentamente uma delas sair daquele olho oculto. A pele estava azuladamente pálida. Pequenos pontos marrons espalhavam-se no nariz, nas bochechas e testa. Lábios magros e estreitos.

“Vou sentir sua falta.” A voz da minha mãe atingiu-me. Estava me encarando morta, a carcaça do meu corpo. A casa da tartaruga.

Observei Bárbara terminar de me vestir com a minha roupa favorita. Inclinou-se sobre meu rosto, beijou-me na testa – beijo estalado que não senti – e começou a me maquilar. Ai, Bárbara, por que tão amorosa? Se tão amorosa por que bárbara? Cantou uma música dos Paralamas do Sucesso, calma e sutil como os efeitos de calmantes. Seus olhos claros estavam estalados pela dor e pelo medo, e eu quis abraçá-la. Pediu para que deus me abençoasse e disse que me amava. Eu também te amo: ela, aquela mulher, permaneceu sólida na minha frente, como se esperasse a resposta que nunca viria, pois eu, eu ali, estava morta. Onde estava o demônio para engolfar-me para as profundezas do inferno?

“Tem certeza disso? ” Jurava que era o som de um grilo: virei-me e um morcego humanoide de cor avermelhada estava na porta da sala. A voz do capeta era de um grilo? Ele pareceu escutar meu pensamento (e era pensamento se eu estava morta?) e sorriu, seus dentes eram brancos, pequenos e pontiagudos. Trajava uma fantasia barata de Elvis Presley. “Sua mãe acredita em mim, eis que estou aqui.”

“Ela não acredita em você.” Respondi automática, encarando os brilhos de plástico em sua vestimenta exagerada.   O demônio falava comigo: que espécie de alegoria era aquela? Lembrei-me das minhas aulas de literatura e arte e tudo parecia uma espécie de borrão. Meu avô um dia me disse que o diabo era velho, e eu acreditei.

“Você não acredita em anjos, então não pode vê-los.”

“Eu não acredito em você e cá está o capeta.” Respondi rapidamente, apontando para o pequeno tufo loiro que saía do seu decote.

“Eu sou a ansiedade.” Ele sorriu divertido.

A ansiedade vestida de Elvis, só dava para ser mais irônico se ele se vestisse de John Lenon. E minha mãe contemplava o rosto morto da filha. Me matei para ter paz, e não essa encenação. Cadê a minha paz? A porta bateu com força, e eu e o diabo-ansiedade viramos o rosto.

“Por que vocês estão aqui? Ela é minha!” Observei um homem e uma mulher entrarem no local, mesmo com a porta fechada, sem sinal de movimento. O diabo-ansiedade se moveu rapidamente, mostrando o dedo do meio para a moça com chapéu panamá com uma fita vermelha.

Era Maria Navalha e na mão dela, existia uma navalha, mas não era dela – um pequeno escorpião e em baixo meu nome estavam talhados. O homem ao lado dela. O conhecia, orelhas pontudas e de abano, e em seu terno, preso na lapela, tinha uma barata dourada que mexia as patinhas.

Era Kafka.

Caralho. Era o Kafka e a Maria Navalha! A cocaína que eu comprei realmente era das boas.