Carta Cinco.

Querida V.M,

Sua carta é cheia de labor: a pena que me deve me queima; as pontas dos meus dedos são corroídas pela reminiscência decepcionante. Lhe botei na frente das cartas porque é catarse – como alguém muito especial me disse -, lhe botei na frente porque uma moça a qual muito admiro leu meu córtex e disse-me para não encurvar – como você me fez encurvar várias vezes, como pisou os seus pés em minhas mãos. É por isso que escuto Zé Ramalho e Alceu Valença ao meter essa tinta falsa nesse papel virtual: preciso de força, preciso do sangue pulsando em minhas veias porque dói. Porque, hoje, sei que o que você fez não passa da reprodução do que querem o que fazemos. Eu aponto em você a maldade, o narcisismo e o egoísmo, mas divido sua culpa com toda a estrutura que vivemos.

Não sei se você sabe, mas catarse significa algo como purificação; ou expressar e se libertar de algum tipo de corrente. Você está em uma categoria estranha em meu córtex. É como aquela unha que está curta, mas ainda maior que seu habitual. Eu lembro das suas unhas – eram lindas – e eu sempre escondia as minhas das suas; eu era infantil, púbere, inocente e você já era quase mulher formada. (Como supracitado era tudo devaneio da minha cabeça)

Nos meus quinze anos, o qual quase desisti, trouxe o seu grande amor da sua vida. Ele fez a declaração, lhe entregou uma flor. Para mim era normal isso, você era minha amiga, éramos amigos – não tinha problema submeter uma possível surpresa a você no meu dia. Realmente, se hoje eu sou alguém egoísta e desconfiada, tem muitos buracos, em várias alturas.

Por razões que hoje entendo, eu e seu namorado nos aproximamos. Quiçá, ele estava apaixonado, quiçá era porque eu era sua amiga e ele lhe adorava. Você passou a ser diferente comigo, sempre me colocando em níveis categoricamente inferiores, e perguntei, está tudo bem? que houve? Não obtive reposta. Vocês terminaram. E você começou a beijar, nos intervalos, e saídas, um rapaz, no mínimo, problemático.

Como fogo e gasolina, o estopim veio: ele te namorava e, além de trair, contava todas as coisas suas para os amigos e a comunidade estudantil. Fui te defender – o puxei no intervalo e disse para ele ser sincero contigo. Você era uma pessoa especial e não merecia ser machucada. (Inocência. Ah, a doce inocência!) Ele pareceu entender. Fiquei muito contente, estava protegendo uma amiga e de quebra ensinando um rapaz nojento ser alguém decente.

Que soassem os tambores no outro dia matutino, às 7h e pouco, você veio, pronta para me atacar, esbravejando. E disse-me que eu queria destruir seu relacionamento e que destruí o anterior, depois que se acalmou e eu, deveras, assustadas me coloquei a te ouvir, as palavras vieram: ele disse-me que alguém feia e com a língua presa, fanha foi se queixar… E V., ao invés de você contar como se não fosse nada ou omitir essa parte, você riu, concordando. Essa lembrança é constante na minha cabeça.

Não compreendo, até hoje, como se deu o processo, mas você parou de falar comigo primeiro, depois de me cumprimentar. Houve fofocas, você disseminou alguns segredos que para época eram grandiosos. E até sua mãe entrou na história dizendo que tinha vontade de me bater.

V., você tentou me desmerecer perante as minhas escolhas, opiniões e vontades; ocorria uma disputa intelectual só sua nas aulas, e acabava virando suicídio porque não me afetava. E eu só entendo hoje. Eu não sinto raiva ou rancor de você.

Com dó;

Muita dó,

Carolina.

Carolina

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