Carta Quatro.

Querida J. C.

Quiçá, o que escrevo nesse papel abstrato será uma das emoções mais reclusas: a angústia seria uma boa forma de materialização do sentimento que aqui discorro. A partir de você, minha amiga, os pensamentos suicidas vieram me visitar. Dizem que o oposto da tristeza é a alegria, eu acredito que o oposto seja o viver.

É com dificuldade que as minhas mãos se movimentam ao som do teclado, meus pensamentos são mais rápidos que o meu medo, e minha chateação com o passado. Você foi uma das minhas primeiras amigas, (mulher) e eu estava tão contente em andar com o meu par. Lembro-me que gostávamos das mesmas brincadeiras e sentávamos uma ao lado da outra nas aulas. Eu te achava tão bonita! – E você ainda deve ser: tens o padrão da beleza europeia. Não me deixava sozinha nas aulas de educação física; a primeira vez que fui considerava a menina mais feia da escola, e você a mais bonita, falou para eu não ligar, que não tinha nada de verdadeiro nessa lista.

Eu acreditei.

Provavelmente você lembra que passamos para a quinta série juntas. Ainda tínhamos aulas de educação física, teatro e minha matéria preferida era biologia; você já semelhava mais com as meninas mais velhas e até ganhou um namoradinho. Foi nessa época que comecei a gostar de música, e nossos gostos levemente tornaram díspares nesse aspecto.

O ano passou de forma quase translúcida, para mim havia dificuldade em me adaptar as novas rotinas e aulas vespertinas. Comecei a gostar de saias e vestidos – costume que é inerente até hoje – e estendi esse hábito ao ambiente escolar. Eu me sentia tão bonita como você era.

(Mesmo o acontecimento completando mais de cinco anos é tão atual quanto um hematoma: encaro por alguns, ou diversos, segundos a tela e questiono se devia ter “superado” esse sentimento.)

As imagens estão coladas em minha retina. Em meu aniversário ganhei uma saia, que para o padrão da época, era moderna, e muito bonita. Resolvi em uma manhã fatídica usá-la para interromper os portões da instituição, fizemos uma prova de português e a professora nos liberou para brincar no pátio ou comer algo na cantina. Acabamos ficando nas muretas conversando. O famoso cofrinho – o meu no caso – apareceu.

Sua risada estourou em meu ouvido. A sensação remeteu-me a um caco de vidro alojado na sola do pé. Disse-me, rindo, que criaria uma comunidade, no Orkut, eu já vi o rego da Cacá – meu apelido da época. Achei que fosse brincadeira – não foi.

O barulho do seu humor apareceu, como assombração, à noite ao ser convidada para a própria comunidade; no fórum hospedaram fotos minhas e zombarias. Ainda me é dolorido relembrar aquela situação. Contei aos meus pais depois de três dias – o motivo? A chacota estava atingiu o corredor, o banheiro feminino e o famoso recreio. Eu tremia muito, como vara verde, como quem foi atingida. Se não fosse isso, quiçá, eu nunca teria soltado a mágoa.

Hoje, pegando a lupa da maturidade, me é palpável observar como a autoflagelação – breve e forte – e minha constante distimia foram abertas em mim naquele momento, de fato. Como um martelo que bate o prego. É assustador como gente como você afeta gente como eu, não e mesmo? Eu fico pensando aqui, se você imagina que construiu anedomia em uma criança de prováveis onze anos. Acredito que meus pais nem sequer imaginam as consequências disso em meu corpo. É muito fácil dissimular – eu tive que aprender -, nada como proteger as pernas – eu podia ser criança, no entanto, sabia que o meu caí, machuque era facilmente aplicado nos membros inferiores. Ninguém precisava saber que era de propósito – aceitei, de bom grado, a alcunha de desastrada, distraída.

Na outra manhã seus pais estavam me esperando na porta da nossa sala. Pediram desculpas, você pediu desculpa. Eu era tão infantil, púbere dentro dos meus pensamentos, que acreditei que você realmente estava sentida – e eu tinha perdoado, você era minha amiga.  A aula passou. Você sentou ao meu lado.

Mas me chamou dos piores termos que entraram em meu cérebro. Eu era mimada, criança, feia, ninguém ia gostar de mim, que lhe mudariam de escola por causa de mim. Fiquei a manhã inteira atordoada no banheiro feminino.

Quando no outro dia você mudou de escola. Passei o resto dos seis meses (do ano letivo) sozinha. Diziam-me que eu era mimada, que não sabia resolver minhas coisas sozinha. Hoje, eu sou a solidão, naquela época não era. Você não acha engraçado como as pessoas nos moldam?  Sou extremamente fechada, cheia de camuflagens e com os dois pés (muito) atrás com qualquer ser-humano. Você fez um bom trabalho – inclusive fez dois bons trabalhos, o outro foi colocar todos meus amigos contra mim, afinal eu estava errada por ter deixado meu rego aparecer.

Apesar das dores, você me é indiferente hoje. Incrível o emocional humano.

Rancorosamente,

Cacá.

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