Carta Três.

Querida M. E.,

No começo você foi uma mão na roda, como dizem; era atenciosíssima e considerava todas as dificuldades de uma pessoa com deficiência auditiva. Mas toda sua bondade acabou na quarta série. Não era surpresa para ninguém minha dificuldade em escutar professores, pela acústica da sala e, às vezes, pelo tom de voz.

O que acontece é que, aos altos de minha dificuldade abstrata, você tornou-se uma presença que me era nociva. Uma vez chamou-me para dizer que havia realizado um teste e descobriu que eu escutava somente elogios, e não mais que isso – e aí estava minha deficiência auditiva. Eu era, no mínimo, mimada em demasia. Uma pena se isso fosse veracidade, não era – meu cid está impresso em vários locais, inclusive em documentos oficiais que me permitem ser cidadã e ter a nacionalidade, a mesma que ti.

Quiçá, eu não escutava elogios por eles não existirem – e somente, e só, as críticas vinham aos meus ouvidos corrompidos. É, hoje, divertidíssimo imaginar seus títulos e seu possível vocativo de “doutora”. Lattes, felizmente, não categoriza a forma emocional de ninguém.

Podia ter sido pior. E tornou-se, assim como a ressaca atinge a areia em dias pesados – feio comparar a senhora ao mar, você é insignificante para cumprir esse feito. Sua mediocridade atingiu níveis exorbitantes ao confraternizar com quem devia ser também seu adversário.

Minha memória não tarda nem falha: me tiraram de uma dança de comemoração de aniversário da escola por eu não dançar bem e não ser bonita e meu cabelo muito armado. Essas frases, ainda, ecoam em minha cabeça. Uma pena eu não ter gravado – seria tão bom a tecnologia nos meus altos doze anos. Eu, por nunca ter sido chamada para algo extracurricular (e em seguida ser chutada como cachorro morto), cheguei aos prantos em casa – queria saber como dava para ser bonita, dançarina e não ter cabelo armado. (Uma semana depois mais ou menos passei pelo meu primeiro processo químico em cima da minha cabeça)

Meus pais tentaram conversar comigo, sem sucesso – uma criança desencantada é irreversível. Você, então, ia ser minha salvadora, como jesus foi aos seus discípulos sujos e peões. Não foi. Era Belzebu sob uma franjinha loira. Chamou-me de orgulhosa, eu tinha que baixar a minha crista de galo, e que se eu não me encaixava naquilo não devia reclamar. Afinal, eu não me encaixava e o Mundo era assim.

Até hoje tenho orgulho da pequena Carolina que disse que nunca abaixaria a crista de galo – ah, se tem uma coisa que eu lhe agradeço, é só por: confirmar a minha coragem e orgulho, e instigar o coração briguento que sempre guardei.

Eu chorei depois também. Você disse-me que eu não era o que elas queriam, já tinham dito isso a mim. Fora medíocre você: uma pedagoga dizendo-me que não era capaz, que existem moldes.

Sua filha estudava no mesmo ambiente que o meu, uns, talvez, quatro anos a mais na idade – ou seja, éramos separadas no intervalo, nas salas de aulas e tudo o que uma boa escola, particular e cristã, faria. Em um dos intervalos ela não deixou meus amigos passarem por eles estarem comigo e ao ser chamada, você pediu para que relevássemos aquela situação. Ela era só uma menina – que jogou minha bolsa no chão e apontou o dedo para mim.

Nunca aceitei que alguém levantasse o dedo para mim, e foi a primeira vez, se não me engano, que mostrei o dedo do meio. O famoso dedo do mal. Fui para a diretoria. E não conversei com ninguém – a sua sorte é que, provavelmente, a senhora mantinha o medo de eu expor toda sua burrice e não recebi sequer um bilhetinho para os meus pais assinarem.

Espero que sua consciência não seja limpa, que tome clonazepam e todos seus efeitos reversos, e que a tristeza seja sua companhia.

Você é a personificação do meu ódio e do que odeio – e não me sinto culpada nem chateada por isso.

Rancorosamente,

Carolina.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s