Carta Dois.

Querido M. S.,

Você foi uma das piores pessoas que passou em minha vida. E ainda te vejo andando pelas ruas de minhas raízes natais. Mas deixe quieto as artimanhas que construímos. Hoje eu quero falar de você.

Eu me pergunto se sou bonita até hoje, se não sou um dragão. Lembra disso, meu querido? Sua postagem em uma fatídica rede social, chamando-me de dragão, que eu cuspia fogo. Que o seu colega de sala por gostar de mim devia ter problemas mentais.

Pois bem, eu lembro. E os seus “canhão!” nos corredores também. Eu gostaria de lhe zoar por você ser você, mas não via problema em você ser você. Mas para você eu era errada: meus cabelos, meu pouco corpo, meu aparelho estourando meus dentes, minha dificuldade de falar aliada na audição escassa.

Faz muito tempo que não converso com você, no entanto, ainda quero ser Carrie ao seu lado. Como queria eu que Stephen King tivesse sido meu deus com catorze anos! Mas não foi – e eu não te matei – eu quisera.

Você parou de atiçar minha baixa autoestima só em 2011, quando foi embora. Você fez com que Y. quebrasse não só meu coração, mas meus ossos – e até hoje tenho a crença que ninguém vai gostar de mim porque eu sou canhão, eu sou dragão.

Ah, e seu conto virtual: dizendo aos todos alunos de uma escola metodista que em um acampamento escolar um dragão se apaixonou por um ser-humano. Querido, você não vale o chão que pisa. Quiçá, o dragão é você, não por ser feio – não acho justo chama-lo assim -, mas por ser o monstro que é.

Espero que saiba que pessoas não mudam. Provavelmente ainda você é medíocre. Você, adivinha!, afetou todas as minhas relações depois que meu primeiro namoradinho disse que não ia ficar comigo porque eu era muito feia, e todos os amigos da sala o ressacava por isso. Quando perguntei quem começou a história, e que não era feia, disse o seu nome. Acredita que eu disse a ele que eu poderia mudar?

De certo modo, você vai receber essa carta. Fique sabendo que eu perdoo você, mesmo você nunca me dirigindo a vênia, eu perdoo você por sua pequenez como ser-humano.

Espero que nunca sinta a dor que eu senti – agradeça a minha mãe por esse pensamento.

Rancorosamente,

Cacá – talvez você lembre-se do meu apelido somente.

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3 thoughts on “Carta Dois.

  1. Não confio em gente que perdoa.
    Sim, há entrelinhas e subtextos, há suposições e segredos, mas fique como fato que o rancor e a vingança exigem uma lealdade [a quê? a si? ao passado? à jura? à dor?] que os que perdoam são incapazes.

      • Quiçá a vingança é minha forma de elaborar o luto e chegar ao encerramento de coisas, mas sim, claro que é prepotência, a prepotência que só a anonimindade permite. Máscaras libertam partes secretas do ego, mas também criam um personagem que tem a própria agenda e que não tem de lidar com todas as consequências de suas opções extremas. Há mesmo como não deslizar para a prepotência tendo este tipo de poder a um login de distância?

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