Adendo de Natasha.

Eu deixo a televisão ligada toda vez que estou em casa. Sozinha. Talvez o motivo seja tão latente quanto meu medo: alguém ver minha solidão espantada nesses poucos metros quadrados, nessa cama funda que o colchão me remete a estar deitada em uma banheira pela sua cavidade e a Virgem Maria pregada na janela (provavelmente um antigo morador era devoto).

As propagandas ali naquele visor não me incomodam, eu pretendo prestar atenção no doce que eu como. Eu saboreio de forma profunda, como se tivesse arranhando a aparência e tentando enxergar a raiz do sabor. Não o encontro e isso me basta. O protetor solar no meu rosto já forma uma crosta, eu tenho vergonha das minhas acnes, do meu nariz e dos meus olhos. Eu tenho todas as inseguranças explicitas nos meus traços arcaicos – eu não devia honrar minha descendência?

(a novela começa)

A parte superior da minha cabeça dói, dói por orgulho e satisfação. Finalmente encontrei uma forma de escape da minha própria dor, no caso, os movimentos dos dois passos para lá e para cá. Para mim é trágico e dolorido, assim como irônico, eu escapo do passado pela dança.

Hoje me elogiaram pois consegui entender minha expressão corporal – e eu não senti a dor, eu não senti a violação que me aconteceu há um ano. Essa imagem me queima: a tentativa de penetração forçada, o grito guardado na garganta até hoje, a dormência nos pés, a ausência de luz.

Parece que não é comigo, parece que é um filme que assisto – assim como IЯЯƎVƎЯSIBLƎ -, em que em mim é posto o papel de Monica Belluci. Até hoje não sei o motivo de tê-lo assistido, talvez, eu só queria alguém para me dizer que é normal acontecer isso com mulheres, à noite, sozinha.  Ninguém sabe da história, tenho um contrato selado com quem tentou me machucar, com quem me deu um tapa na cara  – o primeiro que recebi na vida.

Eu não escuto a chuva: o som dos meus fones está no máximo.

Ah, se a dança pudesse apagar minhas memórias….