santiago – parte I

Faz tantos tempos, não é mesmo? – você me diz, de olhos fechados. Seus lábios rosados entre abertos, sugando o ar fresco do ambiente. Faz tanto tempo, você se responde, você me repete. Suas íris imersas naquele breu profundo, preto, negro, escuro (igual a pela, aos pelos, a alma).

Não me deixa abrir a boca, mesmo o meu córtex – ou qualquer área do meu cérebro – induzindo seu processo. E continua: nem parece que foi esse ano, não é mesmo? Parece sim, eu tenho vontade de responder. Parece sim, eu peço de novo. Parece sim.

(Uma prece assim.)

Você me diz cheia de dores, com seus odores, que não gosta de Machado de Assis e o incômodo não me abate que nem há tempos atrás. Eu estou em outros timbres literários. Você abre os teus olhos rapidamente e me vê, parado, em cima da sua cabeça, te encarando te volta – respondendo os seus pensamentos loucos.

E eles se fecham.

E ficam, ali, quietos, meio trêmulos.

Você não se importa – tem a mim a sua vontade, nos céus e na terra (em cima dela ou abaixo).

Lembro da sua escrita, da vez que chegou em casa (com uma carta), do seu consolo – e do filme Hobbit. Não é fácil, você continua. Não é fácil por quê? – tento te responder. E ficamos mais uma vez em silêncio.

Dos teus peitos escapa um riso, seus ombros chacoalham e observo lascivamente as suas saboneteiras. Falo-te de antropologia, mas me caçoa, não se importa. Não tem pretensão nenhuma de escutar a minha voz. Eu falho-te.

Você começa a contar.

Mas você erra um número.

Talvez me odeie um dia, talvez não.

Mas continua contando.

2

(…)

2

(…)

e seiscentos

Você para.

Me encara, me olha nos olhos, nas íris. Eu não te olho, me cego pra não ver a verdade em minha frente.

E pergunta por que temos que viver até o fim, se podemos antecipá-lo.

 

 

 

(pedi desculpas, mas você não aceitou, continuou. Errando mais uma vez.

dois dois três dois dois sete)